
Até aqui, a reforma tributária parecia assunto de contador e de Brasília. A partir de janeiro de 2027, ela passa a ser assunto do caixa da sua empresa.
É quando a CBS, o novo imposto federal sobre o consumo, começa a ser cobrada de verdade, e o PIS e a Cofins deixam de existir. Em 2026 tivemos só um ano de teste, com valores simbólicos destacados na nota. Agora é para valer. E um detalhe que diz muito: a alíquota da CBS para 2027 ainda nem foi fixada. Pela previsão, o TCU propõe o número até o fim de outubro e o Senado bate o martelo até meados de dezembro. Ou seja, muita empresa vai conhecer a regra do jogo poucas semanas antes de o jogo começar.
A boa notícia é que dá tempo de se preparar. A má é que quem deixar para dezembro vai descobrir os efeitos da pior forma: no extrato.
O que muda, em poucas linhas
- 2027: a CBS substitui o PIS e a Cofins. O IPI é zerado para quase todos os produtos (fica só para o que também é fabricado na Zona Franca de Manaus), e começa o Imposto Seletivo, sobre itens como cigarro e bebida.
- 2029 a 2032: o ICMS e o ISS vão sendo reduzidos aos poucos e substituídos pelo IBS, o imposto de estados e municípios.
- 2033: o sistema novo passa a valer por inteiro.
Ou seja: por seis anos, a sua empresa vai conviver com dois sistemas ao mesmo tempo. Mais regras, mais conferência, mais chance de erro.
Onde o caixa sente primeiro
1. O imposto muda de cara, e o preço também. A CBS incide sobre o valor da venda e dá direito a crédito do que foi pago nas compras. Para quem está no Lucro Presumido, que hoje paga PIS e Cofins sem crédito, é uma lógica bem diferente. Para quem está no Lucro Real, o crédito já existia, mas era mais restrito. Nos dois casos, a carga muda (para mais ou para menos) e, com ela, a margem de cada produto ou serviço. Quem tem a tabela de preços montada sobre a carga antiga pode estar vendendo com margem diferente da que imagina, a partir de janeiro.
2. Crédito vira dinheiro, mas só para quem controla. No sistema novo, praticamente tudo o que a empresa compra para a atividade gera crédito. Isso é uma oportunidade real. Mas crédito só vira caixa se a nota estiver certa, o fornecedor tiver recolhido e o lançamento for feito no prazo. Empresa com contas a pagar desorganizado vai deixar dinheiro na mesa.
3. O dinheiro pode chegar menor na conta. O chamado split payment faz o banco separar o imposto no momento do pagamento e mandar direto para o governo. A previsão divulgada pela Receita é começar em 2027 de forma opcional e só nas vendas entre empresas; a data em que ele passa a ser obrigatório ainda não está definida em norma. Mas a direção é clara: aos poucos, o imposto deixa de passar pelo seu caixa. Quem hoje usa o dinheiro do imposto até a data do recolhimento como capital de giro precisa recalcular essa conta.
4. Fornecedor do Simples pode pesar diferente. As empresas do Simples Nacional continuam no regime, mas o crédito que elas geram para quem compra delas fica limitado ao que pagam dentro do Simples, ou seja, tende a ser menor. A lei permite que o fornecedor do Simples escolha recolher a CBS e o IBS pelo regime normal, e aí o crédito para o cliente é cheio. Na hora de escolher fornecedor, preço de tabela deixa de ser a única comparação: o crédito que cada um gera passa a entrar na conta. E, se a sua empresa é do Simples e vende para outras empresas, vale fazer essa conta do outro lado também.
5. Contrato longo precisa ser lido de novo. Contratos de prestação de serviço, aluguel e fornecimento assinados com a carga antiga podem ficar desequilibrados. Vale conferir se existe cláusula de reajuste por mudança de tributo, para os dois lados.
O que fazer até o fim do ano
- Simular o impacto da CBS nos seus principais produtos e serviços, com os números da sua empresa, e não com médias de mercado.
- Revisar a precificação dos itens em que a margem muda mais.
- Arrumar o cadastro de produtos, serviços e fornecedores. É dele que o sistema vai tirar a classificação de cada operação.
- Conversar com o fornecedor do seu sistema de gestão (ERP) sobre quando e como ele vai tratar a CBS, os créditos e a convivência com os impostos antigos.
- Projetar o fluxo de caixa de 2027 considerando a mudança no momento em que o imposto sai da conta.
- Alinhar com o seu contador a parte fiscal: regime, obrigações e enquadramento de cada operação.
Nada disso é complicado, mas tudo exige números organizados. E é aí que muita empresa trava: o impacto da reforma depende de informação que, hoje, está espalhada em planilhas, no sistema e na cabeça de duas ou três pessoas.
Para fechar
A reforma mexe em preço, margem, crédito e no momento em que o dinheiro entra e sai. Bem mais do que trocar a sigla do imposto. Empresa que chegar a 2027 com os números na mão vai tomar decisões melhores do que a concorrência. Quem chegar sem eles vai passar o primeiro semestre apagando incêndio.
Na P1P, ajudamos empresas a fazer exatamente essa preparação: simulação do impacto, revisão de preços, fluxo de caixa projetado e organização da rotina financeira para o período de transição, sempre em conjunto com o contador de cada cliente. Se quiser entender o que muda no seu caso, comece por uma conversa com a gente, sem compromisso.
Boa semana e fica a dica!
Jack Haber
CEO da Priority Partners